segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Feudalismo

FEUDALISMO

I - Antecedentes
Desde o século III, o Império Romano enfrentava uma profunda crise estrutural, difícil de ser superada. Dentre os diversos fatores, podemos destacar:

- O expansionismo territorial, baseado na garantia de obtenção de novos recursos retirados dos povos dominados e o fornecimento de escravos. Para garantir o domínio das áreas conquistadas, era necessário um grande aparato administrativo e militar. Com o fim da expansão, houve um princípio de crise econômica, representada pelos enormes gastos com esta estrutura política.

- Para custear as despesas com o exército e a burocracia, o Estado tornou-se cada vez mais burocrático e autocrático. As insaciáveis exigências e regulamentos do Império
Romano enfraqueceram a iniciativa e o espírito cívico dos seus cidadãos. As cidades perderam a sua vitalicidade e o campo não produzia alimento suficiente. Ligada a este declínio, temos as constantes guerras civis, surgidas a partir dos confrontos entre chefes militares romanos. Estes chefes militares se preocupavam mais com sonhos pessoais do que a defesa das fronteiras imperiais. Essas guerras civis eram uma terrível carga financeira para o Império e enfraqueceram muito as defesas das fronteiras, abrindo espaço para as invasões dos germânicos.

- Ao apresentarem características estruturais atrativas para os germânicos, estes ficavam na expectativa de aumentarem os contatos a fim de se desenvolverem. Porém, com um Império enfraquecido, os germânicos iniciaram ataques às fronteiras. Estas invasões, ocorridas nas imensas fronteiras empobrecidas e despovoadas, agravaram os problemas internos de Roma. O Estado romano impunha pesados tributos e trabalhos aos cidadãos para revigorar as forças armadas, provocando nas sobrecarregadas classes média e baixa, o ódio ao governo imperial que tanto as explorava.

- A crise social resultou em dois aspectos. Primeiro, houve um declínio na taxa de natalidade, com o surgimento de novas epidemias. Com a diminuição populacional, aumentavam-se as despesas com a administração do Império, criando uma sobrecarga para os contribuintes. Por isso, teremos a redução do número de trabalhadores nos setores responsáveis pela dinâmica econômica do Império. Com isso, os imperadores foram forçados a permitirem o estabelecimento de colônias germânicas dentro dos limites do Império para manter o exército, situação essa que levou à sua barbarização. O segundo aspecto está na ampliação do processo de concentração fundiária e formação de uma plebe urbana sem terra e trabalho. Além disso, com a paralisação das conquistas imperialistas representou o fim do trabalho produtivo. A alta constante do escravo inviabilizava a manutenção da escravidão, enquanto o valor do trabalho livre decaía em função da ampla oferta disponível.

Enquanto existia uma grande crise no Império Romano, nas suas fronteiras, começavam a atrair povos oriundos da Europa centro-oriental. Estes seriam conhecidos por “bárbaros” ou “germânicos” e, desde o final do século III, já estavam entrando pacificamente no Império Romano, transferindo-se para áreas ainda não ocupadas da Europa Ocidental, em busca de terras férteis para o cultivo e de possibilidade de ascensão dentro do Império.
Para os romanos – especialmente os governantes – viam, com bons olhos, a imigração estrangeira: haveria mais braços trabalhando, a produção aumentaria,, haveria maior cobrança de impostos e o exército imperial poderia contar com um maior número de recrutas que se tornariam soldados romanos em pouco tempo.
Obviamente que estes “bárbaros” – em geral, oriundos da Europa centro-oriental, de uma região chamada Germânia – traziam sua cultura, costumes, organização jurídica, econômica e militar. Estes valores culturais, bem como seus representantes começaram a se mesclar e miscigenar com a cultura e população romana.
No século IV, esta penetração germânica no Império Romano começou a se tornar mais violenta. Com uma superioridade militar, começaram a invadir e ocupar territórios na parte ocidental do Império Romano. Este movimento foi uma resposta a uma nova condição político-militar da época: os germânicos começaram a perder suas terras por outros povos vindos da Ásia e da Europa Oriental. Por isso, que em 476 d.C., Rômulo Augústulo, imperador romano foi deposto por Odoacro, um general romano de origem germânica.

II – Alta Idade Média (séculos V ao X)

A partir do século III a crise do Império romano tornou-se intensa e manifestou-se principalmente nas cidades, através das lutas sociais, da retração do comércio e das invasões bárbaras. Esses elementos estimularam um processo de ruralização, envolvendo tanto as elites como a massa plebéia, determinando o desenvolvimento de umas novas estruturas sócias econômica, baseadas na vilae e no colonato.
As transformações da estrutura produtiva desenvolveram-se principalmente nos séculos IV e V e ocorreram também mesmo nas regiões onde se fixaram os povos bárbaros, que, de uma forma geral, tenderam a se organizar seguindo a nova tendência do Império, com uma economia rural, aprofundando o processo de fragmentação.
Em meio à crise, as Vilae tenderam a se transformar no núcleo básico da economia. A grande propriedade rural passou a diversificar a produção de gêneros agrícolas, além da criação de animais e da produção artesanal, deixando de produzir para o mercado, atendendo suas próprias necessidades. Foi dentro deste contexto que se desenvolveu o colonato, novo sistema de trabalho, que atendia aos interesses dos grandes proprietários rurais ao substituir o trabalho escravo, aos interesses do Estado, que preservava uma fonte de arrecadação tributária e mesmo aos interesses da plebe, que migrando para as áreas rurais, encontrava trabalho.
O colono é o trabalhador rural, colocado agora em uma nova situação. Nas regiões próximas a Roma a origem do colono é o antigo plebeu ou ainda o ex-escravo, enquanto nas áreas mais afastadas é normalmente o homem de origem bárbara, que, ao abandonar o nomadismo e a guerra é fixado a terra.
O colono é um homem livre por não ser escravo, porém está preso a terra.
A grande propriedade passou a dividir-se em duas grandes partes, ambas trabalhadas pelo colono; uma utilizada exclusivamente pelo proprietário, a outra dividida entre os colonos. Cada colono tinha a posse de seu lote de terra, não podendo abandoná-lo e nem ser expulso dele, devendo trabalhar na terra do senhor e entregar parte da produção de seu lote. Dessa maneira percebe-se que a estrutura fundiária desenvolve-se de uma maneira que pode ser considerada como embrionária da economia feudal. É importante notar que durante todo o período de gestação do feudalismo ainda serão encontrados escravos na Europa, porém em pequena quantidade e com importância cada vez mais reduzida.
Durante os séculos III e IV, o Império Romano do Ocidente (porção surgida com a divisão ocorrida em 395) sofreu inúmeras invasões de povos chamados de bárbaros pelos romanos. Estes povos viviam além das fronteiras orientais do império e em busca de terras, empreenderam uma maciça migração para o ocidente europeu. Os povos “bárbaros”, ao ocuparem parte das terras do Império Romano, contribuíram com o processo de ruralização e com a fragmentação do poder, no entanto, assimilaram aspectos da organização sócio-econômica romana, fazendo com que os membros da tribo se tornassem pequenos proprietários ou rendeiros e, com o passar do tempo, cada vez mais dependentes dos grandes proprietários rurais, antigos líderes tribais.
O colapso do “Mundo Romano” possibilitou o desenvolvimento de diversos reinos de origem bárbara na Europa, destacando-se o Reino dos Francos, formado no final do século V, a partir da união de diversas tribos francas sob a autoridade de Clóvis, iniciador da Dinastia Merovíngea. A aliança das tribos, assim como a aliança de Clóvis com a Igreja Católica impulsionou o processo de conquistas territoriais, que se estendeu até o século IX e foi responsável pela consolidação do “beneficium”, que transformaria a elite militar em elite agrária.
O beneficium era uma instituição bárbara, a partir da qual o chefe tribal concedia certos benefícios a seus subordinados, em troca de serviços e principalmente de fidelidade. Em um período de crise generalizada, marcada pela retração do comércio, da economia monetária e pela ruralização, a terra tornou-se o bem mais valioso e passou a ser doada pelos reis a seus principais comandantes.

A economia

A economia feudal possuía base agrária, ou seja, a agricultura era a atividade responsável por gerar a riqueza social naquele momento. Ao mesmo tempo, outras atividades se desenvolviam, em menor escala, no sentido de complementar a primeira e suprir necessidades básicas e imediatas de parcela da sociedade. A pecuária, a mineração, a produção artesanal e mesmo o comércio eram atividades que existiam de forma secundária.
Como a agricultura era a atividade mais importante, a terra era o meio de produção fundamental. Ter terra significava a possibilidade de possuir riquezas (como na maioria das sociedades antigas e medievais), por isso preservou-se a caráter estamental da sociedade. Os proprietários rurais eram denominados Senhores Feudais, enquanto que os trabalhadores camponeses eram denominados servos.

O feudo era a unidade produtiva básica. Imaginar o feudo é algo complexo, pois ele podia apresentar muitas variações, desde vastas regiões onde encontramos vilas e cidades em seu interior, como grandes "fazendas" ou mesmo pequenas porções de terra. Para tentarmos perceber o desenvolvimento socioeconômico do período, o melhor é imaginarmos o feudo como uma grande propriedade rural. O território do feudo era dividido normalmente em três partes: O Domínio ou manso senhorial, terra comum ou manso comunal e manso servil ou tenência.
O Domínio era a parte da terra reservada exclusivamente ao senhor feudal e trabalhada pelo servo. A produção deste território destinava-se apenas ao senhor feudal. Normalmente o servo trabalhava para o senhor feudal, nessa porção de terra ou mesmo no castelo, por um período de 3 dias, sendo essa obrigação denominada corvéia.
Terra comum ou manso comunal era a parte da terra de uso comum. Matas e pastos que podem ser utilizadas tanto pelo senhor feudal como pelos servos. É o local de onde se retiram lenhas
ou madeiras para as construções, e onde pastavam os animais.
Manso servil era a parte destinada aos servos. O manso é dividido em lotes (glebas) e cada servo tem direito a um lote. Em vários feudos o lote que cabe a um servo não é contínuo, ou seja, a terra de vários servos é subdividida e uma intercalada nas outras. De toda a produção do servo em seu lote, metade da produção destina-se ao senhor feudal, caracterizando uma obrigação denominada talha.
Esse sistema se caracteriza pela exploração do trabalho servil, responsável por toda a produção. O servo não é considerado um escravo, porém não é um trabalhado livre. O que determina a condição servil é seu vínculo com a terra, ou seja, o servo está preso a terra. Ao receber um lote de terra para viver e trabalhar, e ao receber (teoricamente) proteção, o servo está forçado a trabalhar sempre para o mesmo senhor feudal, não podendo abandonar a terra. Essa relação definiu-se lentamente desde a crise do Império Romano com a formação do colonato.
Além da corvéia e da talha, obrigações mais importantes devidas pelo servo ao senhor, existiam outras obrigações que eram responsáveis por retirar do servo praticamente tudo o que produzia. Dentre elas, podemos citar:

- Censo: tributo pago em dinheiro ou espécie pelos servos ao senhor, reconhecendo o direito que ele tinha sobre a terra.
- Mão morta: tributo pago pelo servo ao senhor pela transferência hereditária da posse do lote de terra. Geralmente, era o melhor animal que o servo falecido tinha, para permitir que o filho dele permanecesse na terra.
- Meação: tributo pago ao senhor pelos instrumentos fornecidos aos servos necessários para cultivá-la. Era pago estabelecendo uma parcela maior do resultado da produção (geralmente entre metade a dois terços).
- Banalidades: taxas pelo uso do moinho e do forno; requisição de alojamentos; taxas pelo uso do bosque; taxas judiciárias diversas.
- Capitação: imposto pago por cada membro da família do servo (por cabeça);
- Tostão de Pedro ou dízimo:: 10% da produção do servo era pago à Igreja, utilizado para a manutenção da capela local;

Tradicionalmente a economia foi considerada natural, de subsistência e desmonetarizada. Natural por que se baseava em trocas diretas, produtos por produto e diretamente entre os produtores, não havendo, portanto um grupo de intermediários (comerciantes); de subsistência por que produzia em quantidade e variedade pequena, além de não contar com a mentalidade de lucro, que exigiria a produção de excedentes; desmonetarizada por não se utilizar qualquer tipo de moeda, sendo que havia a troca de produto por produto.
Apesar de podermos enxergar essa situação básica, cabem algumas considerações: o comércio sempre existiu, apesar de irregular e de intensidade muito variável. Algumas mercadorias eram necessárias em todos os feudos, mas encontradas apenas em algumas regiões, como o sal ou mesmo o ferro. Além desse comércio de produtos considerados fundamentais, havia o comércio com o oriente, de especiarias ou mesmo de tecidos, consumidos por uma parcela da nobreza (senhores feudais) e pelo alto clero. Apesar de bastante restrito, esse comércio já era realizado pelos venezianos.
Mesmo o servo participava de um pequeno comércio, ao levar produtos excedentes agrícolas para a feira da cidade, onde obtinha artesanato urbano, promovendo uma tímida integração entre campo e cidade. A pequena produtividade fazia com que qualquer acidente natural (chuvas em excesso ou em falta, pragas) ou humano (guerras, trabalho inadequado ou insuficiente) provocasse períodos de escassez. Nesse sentido havia uma tendência a auto suficiência, uma preocupação por parte dos senhores feudais em possuir uma estrutura que pudesse prove-lo nessas situações

A sociedade

A sociedade feudal era composta por duas classes sociais básicas: senhores e servos. A estrutura social praticamente não permitia mobilidade, sendo, portanto que a condição de um indivíduo era determinada pelo nascimento, ou seja, quem nasce servo será sempre servo. Utilizando os conceitos predominantes hoje, podemos dizer que, o trabalho, o esforço, a competência e etc, eram características que não podiam alterar a condição social de um homem.
O senhor era o proprietário dos meios de produção, enquanto os servos representavam a grande massa de camponeses que produziam a riqueza social. Porém podiam existir outras situações: a mais importante era o clérigo. Afinal o clero é uma classe social ou não?
O clero possuía grande importância no mundo feudal, cumprindo um papel específico em termos de religião, de formações sociais, morais e ideológicas. No entanto esse papel do clero é definido pela hierarquia da Igreja, quer dizer, pelo Alto Clero, que por sua vez é formado por membros da nobreza feudal. Originariamente o clero não é uma classe social, pois seus membros ou são de origem senhorial (alto clero) ou servil (baixo clero).
A maioria dos livros de história retrata a divisão desta sociedade segundo as palavras do Bispo Adalberon de Laon: “na sociedade alguns rezam, outros guerreiam e outros trabalham, onde todos formam um conjunto inseparável e o trabalho de uns permite o trabalho dos outros dois e cada qual por sua vez presta seu apoio aos outros” Para o bispo, o conjunto de servos é “uma raça de infelizes que nada podem obter sem sofrimento”. Percebe-se o discurso da Igreja como uma tentativa de interpretar a situação social e ao mesmo tempo justificá-la, preservando-a. Nesta sociedade, cada camada tem sua função e, portanto deve obedecê-la como vontade divina.
Na camada superior, os guerreiros podem-se perceber uma diferença entre nobres e cavaleiros. Os primeiros descendem das principais famílias do período carolíngeo, enquanto que os demais se tornaram proprietários rurais a partir da concessão de extensões de terras oferecidas pelos nobres. Essa relação era bastante comum, fortalecia os laços entre os membros da elite, mesmo por que os cavaleiros se tornavam vassalos e ao mesmo tempo procuravam imitar o comportamento da nobreza tradicional, adotando sua moral e seus valores. Com o passar do tempo a diferenciação entre nobres e cavaleiros foi desaparecendo; preservou-se, no entanto a relação de suserania e vassalagem”.
A relação de suserania e vassalagem são bastante complexas. Sua origem remonta ao Reino Franco, principalmente durante o reinado de Carlos Magno e baseia-se na concessão do feudo (baneficium) dentro do comitatus. O comitatus era uma instituição de tradição germânica que ligava os chefes militares aos seus guerreiros por meios de obrigações mútuas de serviço s e lealdade.
As relações feudais permitiam aos senhores aumentar a sua força militar. A necessidade de apoio armado era a principal razão da prática da vassalagem, na qual o súdito, em cerimônia solene, jurava fidelidade a um senhor. Entre outras coisas, o vassalo prestava serviço militar ao seu senhor, e recebia em troca um feudo. Esse feudo era habitado por camponeses e sua produção proporcionava ao vassalo o meio de vida.
Em troca do feudo e da proteção do senhor, o vassalo lhe devia várias obrigações, entre as quais a prestação de assistência militar e o provisionamento de cavaleiros, a participação nos tribunais do senhor e o julgamento de casos; a hospedagem do senhor quando este viajava pelo território do vassalo; a oferta de um presente quando o filho do suserano era sagrado cavaleiro ou quando sua filha mais velha se casava; e conseguir um resgate, se o suserano fosse capturado pelo inimigo.
Em geral, tanto o suserano quanto o vassalo sentiam-se obrigados, pela sua honra, a respeitar o juramento de fidelidade. Era costume generalizado o vassalo renunciar à fidelidade ao seu senhor se este deixasse de protegê-lo contra os inimigos, o tratasse mal ou aumentasse as sua obrigações fixadas em contrato feudal. Da mesma forma, se o vassalo na cumprisse suas obrigações, o senhor o convocava à sua corte, onde seria julgado por traição. Se culpado, podia perder o feudo e até mesmo a vida. Como com freqüência o vassalo tinha terras de mais de um senhor, e por vezes era, ele próprio, suserano, as situações se tornavam muitas vezes estranhas, complexas e confusas.
Com a evolução do feudalismo, o rei passou a ser considerado como o principal senhor, que concedera feudos aos grandes senhores, que por sua vez dividiram em unidades menores e as reconcederam aos vassalos. Assim, todos os membros da classe dominante, desde os menores cavaleiros até o rei, ocupavam um lugar na hierarquia feudal. Embora em teoria o rei fosse a mais alta autoridade política e a fonte da propriedade da terra, na realidade ele era, muitas vezes, menos poderoso do que outros nobres de seu reino.
Os servos, na base da sociedade feudal, eram a esmagadora maioria da população. Trabalhavam para produzir alimentos para a família e para os senhores. Alguns pedaços de terra eram cultivados pelo grupo familiar, enquanto noutros trabalhava a comunidade. Ao contrário do escravo, que podia ser vendido e não tinha bens, o camponês da Idade Média podia contar com um pedaço de terra para sustentar a sua família e ser proprietário de ferramentas agrícolas e de alguns outros pertences. E não podia ser vendido, permanecendo no feudo quando este pro qualquer motivo passava a outro senhor.

A política

No mundo feudal não existiu uma estrutura de poder centralizada. Não existe a noção de Estado ou mesmo de nação. Portanto consideramos o poder como localizado, ou seja, existente em cada feudo. Apesar da autonomia na administração da justiça em cada feudo, existiam dois elementos limitadores do poder senhorial. O primeiro é a própria ordem vassálica, onde o vassalo deve fidelidade a seu suserano; o segundo é a influência da Igreja Católica, única instituição centralizada, que ditava as normas de comportamento social na época, fazendo com que as leis obedecessem aos costumes e à "vontade de Deus". Dessa forma a vida quase não possuía variação de um feudo para outro. É importante visualizar a figura do rei durante o feudalismo, como suserano-mor, no entanto sem poder efetivo devido à própria relação de suserania e a tendência à auto-suficiência econômica.

A Igreja Católica

O cristianismo foi o princípio integrador, e a igreja, a instituição dominante da Idade Média. Co a decadência do Estado romano e de suas instituições, a igreja cresceu em poder e importância; sua organização tornou-se mais forte e o número de seus membros aumentou.
Durante as invasões dos séculos V e VI, a igreja assumiu muitas das funções políticas antes desempenhadas pelo Estado romano, e continuou a converter as tribos germânicas. Ensinando uma moral superior, a igreja domou os hábitos guerreiros dos povos germânicos. Preservando um pouco da cultura superior clássica (Grécia e Roma), abriu o espírito dos germanos a novas idéias. Quando o Império desmoronou, a igreja conservou seu sistema administrativo e preservou elementos da civilização greco-romana. Serviu ainda como um agente unificador e civilizador – desempenhando uma função que antes cabia ao Império Romano – e oferecendo ao homem uma concepção inteligente e significativa da vida e da morte.
Assim, a perspectiva cristã foi a base da civilização medieval, e não as tradições dos bárbaros germânicos. O homem via-se como participante de um grande drama de salvação. Havia apenas uma verdade – a revelação de Deus à humanidade. Havia apenas um caminho para o céu, e passava pela igreja. Deus criara a igreja para administrar os sacramentos e os ritos através dos quais seu amor e proteção eram concedidos. Sem ela, os homens continuariam como pecadores condenados. Para a mente medieval, a sociedade sem a igreja era tão inconcebível quanto a existência sem a visão cristã de Deus e da finalidade da vida. Por toda a Europa, da Itália à Irlanda, formava-se uma nova sociedade centrada no cristianismo.

III - A Baixa Idade Média (séculos X ao XIV)

O desenvolvimento das estruturas demográficas e comerciais

Em fins do século XI a Europa evidenciava muitos sinais de recuperação e vitalidade. As invasões magiares (húngaros) e vikings haviam terminado e senhores e reis poderosos impunham maior ordem em seus territórios. O progresso da tecnologia e a abertura de novas terras aumentaram a produção agrícola.
Durante esta fase, fizeram-se importantes progressos na agricultura. Embora essas inovações só fossem adotadas gradualmente, e não fossem usadas em toda parte, aumentaram acentuadamente a produção. Em fins do século XIII a agricultura medieval havia alcançado um nível técnico muito superior ao do mundo antigo.
Com isso tem-se um aumento populacional, dando início ao processo de colonização interna do ocidente. Pois com mais pessoas era necessário mais terras, o meio mais viável era ir atrás de terras. A partir disso surgiram inovações técnicas que proporcionaram um crescimento produtivo.
Uma das inovações foi o arado pesado, que cortava profundamente o solo, e que permitia aos agricultores um trabalho mais rápido e eficiente e, portanto, o cultivo de áreas mais extensas. A adoção da ferradura para proteger os cascos mais macios dos cavalos aumentou-lhes a capacidade de trabalhar em terreno difícil. Duas outras invenções – o moinho de vento e água – vieram facilitar a moagem do grão e contribuíram para uma maior produção agrícola.
O aumento da produção agrícola se deu, por cultivar áreas que antes estavam desocupadas (desmatando bosques e drenando pântanos), depois, desenvolvendo o emprego do sistema trienal de plantio ou de três campos. Este sistema dividia a terra em três partes, sendo que em duas eram cultivadas duas culturas diferentes e na terceira parte a terra ficava em descanso, ou melhor, no pousio. Esta parte ficava recebendo todo o cuidado para recuperar a fertilidade. No ano seguinte processava-se a rotação de cultura, onde as culturas eram trocadas de áreas de plantio. As vantagens do sistema de três campos estava, primeiramente, que dois terços da terra eram cultivados, e apenas um terço permanecia em desuso. Segundo, a diversificação das plantações possibilitava um suprimento maior de proteínas vegetais.
A maior produção agrícola reduziu o número de mortes provocadas pela fome e as doenças causadas pela deficiência na dieta, contribuindo dessa forma para o aumento demográfico. Isso favoreceu o renascimento do comércio monetarizado e uma ascensão das cidades.
As cidades contribuíram para o declínio do regime senhorial porque, além de produzirem alimentos, criaram novas oportunidades para o homem do povo. Começou a surgir uma nova classe de mercadores e artesãos. Essa nova classe era constituída de pessoas que, ao contrário dos senhores e dos servos, não estavam ligadas a terra. O citadino era um homem novo, com um sistema de valores diferentes do senhor, do servo ou do clérigo.
Uma das razões do crescimento das cidades foi a maior oferta de alimentos, devido ao progresso na tecnologia agrícola. Um excedente na produção agrícola significava que o campo podia manter uma população urbana de artesãos e profissionais. Outra razão para a ascensão dos centros urbanos foi à expansão do comércio. As cidades surgiram na rota de comércio – litoral, margens de rios, encruzilhadas e mercados – e junto dos castelos fortificados, dos mosteiros e das cidades romanas sobreviventes. Com isso começa a surgir as feiras medievais, estas eram os locais onde os comerciantes faziam seus negócios. Estas foram ampliadas pelos camponeses conhecedores de ofícios, ou dispostos a trabalhar em qualquer serviço.
Internamente, estas cidades protegidas por muralhas altas e grossas, torres e ponte levadiça eram organizadas de forma a desenvolverem-se as suas relações comerciais mais rapidamente possível. Mercadores e artesãos organizavam guildas ou corporações para se protegerem da concorrência externa. A corporação dos negociantes de uma cidade impedia que os estrangeiros fizessem ali muitos negócios. A concorrência entre os membros da mesma corporação era desencorajada. Para evitar que qualquer dos membros ganhasse muito mais do que os outros, a corporação exigia que trabalhassem todo o mesmo número de horas, pagassem os mesmos salários aos seus empregados, produzissem mercadorias da mesma qualidade e cobrassem preço justo.
Como muitas cidades estavam situadas em terras que pertenciam aos senhores, ou nos locais das velhas cidades romanas governadas pelos bispos, essas comunidades ficaram, a princípio, sob a autoridade feudal. Mas surgiram logo tensões entre os comerciantes, que procuravam livrar-se das restrições feudais, e os senhores e bispos, que queriam preservar sua autoridade sobre elas. Recorrendo por vezes à luta, e mais freqüentemente ao dinheiro, os burgueses conseguiram cartas dos senhores, dando-lhes o direito de criar seus conselhos próprios.
O setor manufatureiro expande-se nesse período em resposta às necessidades de vestuário, moradia e do fortalecimento do comércio local e internacional. Além disso, o crescimento populacional incentivou a procura de maior conforto entre as camadas mais ricas. A burguesia, em franca expansão, incrementava a expansão das práticas comerciais e do crédito, através do aparecimento de banqueiros, cambistas e usurários a partir do século XIII. Com essa expansão do crédito, favoreceu ainda mais as atividades comerciais – sejam marítima e terrestre – e manufatureiras, nitidamente urbanas.
Fundamental para o renascimento do comércio foi a feira internacional. Ali, comerciantes e artesãos levantavam barracas e quiosques para exibir suas mercadorias. Devido ao grande número de assaltantes, os senhores ofereciam proteção aos negociantes e suas mercadorias, tanto no caminho de ida como no de volta da feira. Como muitas vendas eram feitas a crédito, um rudimentar sistema bancário começou a ser montado, para que as relações comerciais não apresentassem nenhum empecilho em sua expansão.
O mundo do trabalho também assistiu a transformações importantes durante a Baixa Idade Média. Nos domínios dos senhores, foram abolidas algumas obrigações servis, e os camponeses, principalmente, após o século XIII, passaram a exigir pagamento em dinheiro ou em parte do excedente agrícola. Alguns deles conseguiram rendas vendendo seus excedentes nos mercados locais, enquanto outros abandonaram as lavouras e se especializaram na produção artesanal e no comércio.
A partir do século X, a Igreja Católica passa por um processo de reforma interna, comandada pelos monges beneditinos do mosteiro de Cluny (França). Este movimento queria redespertar do fervor espiritual e à eliminação do relaxamento moral do clero, e em especial a sua preocupação pelos bens mundanos, a inobservância da castidade e uma decrescente dedicação à regra beneditina. No século XI, XII e XIII, as Cruzadas – guerras para retomar a Terra Santa aos muçulmanos – foram um extravasamento do zelo cristão e uma tentativa do papado de afirmar sua preponderância.
As cruzadas consistiram em expedições guerreiras estimuladas pelo papado com vistas à conquista da Terra Santa. Foram convocados em 1095 pelo papa Urbano II, em nome de um projeto de união da Cristandade contra os “infiéis”, detentores dos lugares santos e em ofensiva contra os povos cristãos do oriente. Os que dela participavam eram chamados de cruzados; receberiam da Igreja de Roma uma indulgência específica, ou seja, o perdão de seus pecados caso partissem para a Terra Santa.
Apesar de inferiorizados numericamente, os participantes da Primeira Cruzada (1096) conseguiram paralisar a pressão muçulmana sobre os territórios bizantinos e conquistar Jerusalém e outros trechos da Síria e da Palestina, nos quais estabeleceram Estados Feudais, os chamados reinos francos ou latinos.
Mas o êxito dos europeus teria curta duração. Sob a liderança do sultão Saladino, os muçulmanos derrotaram os cruzados em 1187 e reconquistaram Jerusalém. Os reinos latinos ficaram reduzidos a alguns trechos litorâneos da Palestina e da Síria. A Igreja e a nobreza reagiram e em 1189 organizaram a Terceira Cruzada. Mesmo obtendo algumas vitórias, os cruzados não conseguiram recuperar as posições perdidas e terminaram por estabelecer, em 1192, uma trégua com Saladino. As expedições subseqüentes também fracassaram na reconquista de Jerusalém. Algumas nem tentaram: os participantes da Quarta Cruzada consideraram mais lucrativo saquear Constantinopla, em 1204, do que enfrentar os muçulmanos na Terra Santa. No total, foram realizadas oito cruzadas, além de expedições menores. Elas não conseguiram impedir, em 1291, o fim dos últimos enclaves da cristandade ocidental no oriente.
As cruzadas exerceram forte influência na evolução da civilização européia. Os mercadores enriqueceram, pois, aproveitando-se das viagens, criaram novas oportunidades de comércio. Com isso, houve o fortalecimento do poder real, uma vez que os negociantes aliavam-se à Coroa contra os nobres. Por outro lado, a crescente necessidade de transportar os peregrinos propiciou novos investimentos na construção naval e na indústria de bens de consumo.
A economia medieval, em franco desenvolvimento nos séculos XI, XII e XIII, sofreu sérios abalos no decorrer do século XIV, mostrando que o sistema feudal encontrara os limites máximos de sua expansão. A crise que então se abateu sobre a Europa pode ser explicada a partir de um conjunto de fatores cujo resultado, em longo prazo, foi a superação do feudalismo.
Por volta de fins do século XIII a produtividade agrícola já dava claros sinais de declínio, prenunciando uma possível falta de alimentos, devido ao esgotamento dos solos, enquanto a população continuava apresentando tendências de crescimento. A exploração predatória e extensiva dos domínios, que caracterizara a agricultura feudal, fazia com que o aumento da produção se desse, em sua maior parte, com a anexação de novas áreas (que não estava mais ocorrendo) e não com a melhoria das técnicas de cultivo.
No inicio do século XIV, a Europa foi assolada por intensas chuvas (1315 a 1317) que arrasaram os campos e as colheitas. Como conseqüência, a fome voltou a perturbar os camponeses, favorecendo o alastramento de epidemias e trazendo a mortalidade da população. "Nos campos ingleses, ele passou de 40 mortos por cada mil habitantes, para 100 por mil. Na cidade belga de Ypres, uma das mais importantes da Europa, pelo menos 10% da população morreu no curto espaço de seis meses em 1316". (Franco JR. Hilário. O Feudalismo, São Paulo, Brasiliense, 1984, p. 80).
De 1348 a 1350, a peste negra desceu sobre a Europa, trazida da região do Mar Negro por comerciantes genoveses, eliminando de 25 a 35%' da população. Muitas aldeias desapareceram provisória ou definitivamente. Cidades tiveram sua população dizimada, como Toulouse na França, que de 30000 habitantes em 1348, contava com apenas 24000 em 1385; Florença, de 110000 antes da peste, ficou reduzida a 50000.
A peste atingiu indiscriminadamente campo e cidade, pobres e ricos homens e mulheres adultos e crianças, sendo explicada, pelos cronistas medievais, como sendo castigo de Deus.
"Chegara-se ao ano de 1348 da fecunda Encarnação do filho de Deus, quando a cidade de Florença, nobre entre as mais famosas da Itália, foi presa de mortal epidemia. Que a peste fosse obra das influências austrais ou resultado das nossas iniqüidades, e que Deus, na sua justa cólera, a tivesse precipitado sobre os homens como punição dos nossos crimes o certo é que ela se declarara alguns anos antes em terras do Oriente, onde provocara a perda de enorme quantidade de vidas humanas. Depois, sem parar, avançando cada vez mais, propagara-se, para nossa desgraça, para Ocidente. (...) Proibiu-se a entrada na cidade a todos os doentes e multiplicaram-se as prescrições de higiene. Recorreu-se, mil vezes e não apenas uma, às suplicas e orações que são de uso nas procissões e as de outro gênero, com que os devotos se desobrigam perante Deus. Nada pode nada. Desde os dias primaveris do ano que referi, o horrível flagelo começou, de maneira surpreendente, a manifestar sua dolorosa devastação”.(BOCCACIO, Citado por WOLFF, Philippe. Outono da Idade Media ou Primavera dos Novos Tempos? Lisboa, Edições 70, 1988 p.25/26).
Os senhores feudais viram seus rendimentos declinarem devido à falta de trabalhadores e ao despovoamento dos campos. Procuraram então, de todas as maneiras, superar as dificuldades. Por um lado, reforçaram a exploração sobre os camponeses, aumentando as corvéias e demais impostos, para suprir as necessidades de ostentação e consumo, dando origem à "segunda servidão". Por outro, principalmente nas regiões mais urbanizadas, os nobres passaram a arrendar suas terras, substituindo a corvéia por pagamento em dinheiro e dando maior autonomia aos camponeses, alterando bastante as relações de produção.
"Depois da acima dita pestilência, muitos edifícios, grandes e pequenos, caíram em ruínas nas cidades, vilas e aldeias, por falta de habitantes, de maneira que muitas aldeias e lugarejos se tornaram desertos, sem uma casa ter sido abandonada neles, mas tendo morrido todos os que ai viviam; e i provável que muitas dessas aldeias nunca mais fossem habitadas”. Nobres e senhores do reino que tinham foreiros faziam abati mentes da renda, a fim de que os foreiros se não fossem embora, devido à falta de servidores e geral carestia, uns de metade da renda outros mais, outros menos, alguns por dois anos, alguns por três, alguns por um ano, segundo o que combinassem com eles. Desta maneira aqueles que recebiam dos seus foreiros um dia de trabalho ao longo do ano, como é de costume com os vilãos, tinham de lhes dar mais lazeres e perdoar tais trabalhos, e outros libertá-los por completo ou dar-lhes um foro mais fácil por uma renda menor, para que as casas se não arruinassem por completo e a terra não permanecesse inteiramente por cultivar em toda parte.”(KENDALL, E. K. Source-Book of English History, New York, 1908, 49 Ed. p. 102/106. Citado por MONTEIRO, Hamilton M. O Feudalismo: economia e sociedade, São Paulo, Ática 1986, p. 77/78.)”.
Outros proprietários de terra buscaram uma saída através da especialização da agricultura (vinhas, plantas tintoriais) Na Inglaterra, adotou-se a prática de cercamento dos campos e transformação dos mansos em pastagens, com expulsão dos camponeses, que reagiam derrubando as cercas, recuperando a terra para o cultivo. "Não deixam terreno para amanho; cercam-nos todos de valados para os converter em pastagens; deitam as casas abaixo; arrasam as cidades, não deixando nada de pé, a não ser a Igreja, para ser transformada em curral de ovelhas". (SLICHER VAN BATH, B. H. História Agrária da Europa Ocidental. Lisboa, Editorial Presença, 1984, p. 168.).
A mortalidade trazida pelas chuvas, fome e peste negra foi ainda ampliada pela longa guerra entre os reis de Inglaterra e França, que entre combates e tréguas, durou mais de um século (1337/1453): a Guerra dos Cem Anos.
A Guerra dos Cem Anos surgiu porque o rei de França, Felipe IV, anexou a região de Bordéus domínio feudal do rei da Inglaterra, de onde provinha grande parte dos vinhos que os ingleses bebiam. Deveu-se também às ambições da França e da Inglaterra em dominarem a região de Flandres, rica por seu comércio e produção de tecidos. Entre batalhas vendidas ora por ingleses ora por franceses e períodos de trégua, a guerra aumentou as dificuldades da nobreza e agravou a situação de miséria dos servos.
“O recrudescimento da exploração feudal sobre os servos contribuiu para as revoltas camponesas que grassaram na Europa do século XIV, nas quais milhares deles foram mortos. Elas consistiam em súbitas explosões de resistência feroz; duravam pouco e, em regra, estavam mal organizadas. Logo que os lideres morriam ou eram feitos prisioneiros, a resistência apagava-se novamente com a mesma rapidez com que tinha começado a arder”.(SLICHER VAN BATH, B. H., op. cit. p. 192.).
As revoltas mais conhecidas foram a "jaquerie" ocorrida em 1358, ao norte de Paris e a liderada por Wat Tyler, nos arredores de Londres. Os camponeses reclamavam da vida dura no campo, dizendo que "a condição de bestas era mais feliz que a nossa, pois não são obrigadas a trabalhar mais do que sua força lhes permite" (Guillaume Carle) ou ainda: "Por que razões são mais poderosos aqueles a quem chamamos senhores? Por que nos mantêm na servidão? E se viemos todos nós de um pai e de uma mãe, Adão e Eva, como os podem dizer ou mostrar que são melhores?" (John Ball, 1381). Manifestavam também sua insatisfação através da sabotagem da produção, do pagamento de taxas em atraso ou de fugas para as cidades, onde se empregavam nas manufaturas.
A crise geral do sistema feudal provocou também revolta urbana: "Em 1381 o povo de Gand revoltou-se contra o seu senhor, o conde de Flandres. Marcharam em grande número para Bruges, tomaram a cidade, depuseram o conde, roubaram e mataram todos os seus oficiais e procederam da mesma maneira em relação a todas as outras cidades flamengas”.(The Diary of Buonaccorso Pitti. Citado por MONTEIRO, H. M., op. cit. p. 81.).
A conjuntura de epidemias, de aumento brutal da mortalidade e de superexploração camponesa que caracterizou a Europa do século XIV trazendo crise, foi sendo superada no decorrer do século XV, que viu a retomada do crescimento populacional, agrícola e comercial. No campo, os senhores feudais, substituindo as corvéias por salários, rompiam com o sistema senhorial de produção. Nas cidades, o revigoramento do mercado era favorecido pela ascensão dos preços das manufaturas. Finalmente vencida pelos franceses, a Guerra dos Cem Anos fez emergir o sentimento nacional na França e na Inglaterra, favorecendo, um nos dois países, a consolidação territorial e a retomada do poder político pelos reis. Os monarcas contaram com as dificuldades da nobreza e com o apoio econômico da burguesia para recuperar e fortalecer sua autoridade.
A recuperação demográfica, o progresso técnico a expansão marítima pelo Oceano Atlântico, o Renascimento cultural e artístico um cristianismo reelaborado proposto por Lutero e Calvino através da Reforma Protestante, eis como a civilização européia reagiu às dificuldades e avançou nos séculos XV e XVI no caminho do progresso que a levaria a se impor ao mundo.

3 comentários:

Alice disse...

foi muito bom e eu gostei muito parabens

Edson Ricardo disse...

Obrigado Alice, este blog está sendo montado para um melhor aprendizado em História.

Edson Ricardo disse...

Obrigado Alice, este blog está sendo montado para um melhor aprendizado em História.